Desenvolvimento e Avaliação das Características Físicas, Químicas e Sensoriais de Bebida Alcoólica Fermentada de Caju Obtida Pelo Método Tradicional de Elaboração de Espumantes
Combate ao desperdício, agregação de valor, pendúnculo, espumante de caju, Saccharomyces ssp, análises físico-químicas e sensorial
Apesar de sua expressiva importância econômica e do seu potencial como matéria-prima para uma ampla gama de produtos — como polpa, doces, geleias e vinhos —, o pedúnculo do caju, rico em vitaminas e sais minerais, ainda é subaproveitado. Estima-se que entre 80% e 90% da produção anual seja desperdiçada. Entre os principais fatores que contribuem para esse cenário estão sua alta perecibilidade, baixa resistência a danos mecânicos, curta vida pós-colheita e o fato de a cadeia produtiva do caju ser fortemente voltada à amêndoa. Diante desse panorama, este trabalho teve como objetivo desenvolver uma alternativa tecnológica e sustentável para agregar valor ao pedúnculo e reduzir o desperdício: a elaboração de um fermentado análogo ao espumante, o Espumante de Caju. O suco base foi obtido por extração direta de frutos íntegros do clone de cajueiro-anão precoce CCP 76, desenvolvido pela EMBRAPA, seguido de clarificação. Realizou-se a caracterização físico-química do suco clarificado, com análise de sólidos solúveis, pH, acidez titulável e colorimetria. Para a fermentação, foram aplicados três tratamentos distintos, utilizando cepas comerciais de leveduras Saccharomyces spp., amplamente empregadas na indústria enológica. As amostras fermentadas foram avaliadas quanto à densidade, acidez, pH, cor e teor alcoólico. A caracterização dos compostos voláteis — álcoois e ácidos — foi realizada por meio de HS-SPME-GC/MS (Headspace Solid-Phase Microextraction acoplada à Cromatografia Gasosa e Espectrometria de Massas), com identificação baseada nos índices de retenção obtidos a partir de uma mistura de padrões de alcanos (C7–C30). Além da análise instrumental, as amostras foram submetidas à avaliação sensorial por 60 participantes, considerando os atributos de cor, aroma, sabor e aceitação geral, por meio da Escala Hedônica e teste de intenção de compra. Os dados foram analisados estatisticamente com o software STATISTICA (versão 7.0), utilizando o teste de Tukey (p ≤ 0,05). Foram identificados 23 compostos voláteis, com predominância das classes de ésteres e álcoois. Os ésteres foram mais abundantes, destacando-se o octanoato de etila, decanoato de etila e 9-etil-decenoato. O hidrocarboneto estireno também foi identificado, com concentração elevada na amostra T1MJ, associada a notas sensoriais indesejáveis, como aroma de plástico e adstringência. Por outro lado, as amostras T2BL e T3RS apresentaram perfis aromáticos mais agradáveis, com predominância de notas doces e frutadas, mostrando-se mais promissoras para a produção de um espumante de caju de qualidade sensorial superior. Este estudo reforça o potencial do pedúnculo do caju como uma matéria-prima valiosa para o desenvolvimento de produtos inovadores, contribuindo para a redução de perdas pós-colheita e para o fortalecimento da agroindústria regional.