DA FALA À ESCRITA: A INFLUÊNCIA DA ORALIDADE NA PRODUÇÃO DO GÊNERO CARTA DE RECLAMAÇÃO POR ALUNOS DO 6º ANO ENSINO FUNDAMENTAL
Oralidade. Escrita. Processos fonológicos. Ensino. Carta de reclamação.
A presente investigação tem como tema a influência da oralidade nas produções textuais escolares, com foco específico nas marcas da fala que aparecem na escrita de alunos do 6º ano do Ensino Fundamental. A motivação para a pesquisa surgiu a partir de uma atividade diagnóstica aplicada no início do ano letivo, na qual se evidenciam traços de oralidade nas produções escritas dos alunos, trocas entre /r/ e /l/, grafias fonéticas, alçamento, ditongação entre outros. Diante disso, o objetivo geral do estudo é analisar como a oralidade se manifesta na escrita formal dos estudantes na perspectiva de dar-lhes condições pedagógicas que os auxiliem na aprendizagem da norma culta, sem desvalorizar sua linguagem cotidiana. Para o desenvolvimento desta pesquisa, apoiamo-nos em aportes teóricos que permitem compreender a língua em uso a partir de diferentes eixos complementares. No que se refere à oralidade, dialoga-se com Marcuschi (2001, 2008) e Ferrarezi Jr. (2014, 2018), que problematizam a relação entre fala e escrita e defendem a oralidade como objeto de ensino no contexto escolar. A escrita neste estudo é compreendida como uma habilidade ensinável e processual, à luz das reflexões de Ferrarezi Jr. e Carvalho (2015), que enfatizam a mediação docente, a prática orientada e a escrita como processo. A discussão sobre variação linguística fundamenta-se nos estudos de Bagno (1999, 2007), Bortoni-Ricardo (2004, 2005) e Faraco (2008), que concebem a língua como heterogênea e socialmente marcada. No que concerne ao ensino das normas cultas pela escola, recorremos ainda às contribuições de Faraco (2008) e Bagno (2007), que defendem uma abordagem pautada na noção de adequação linguística, em oposição a práticas corretivas e punitivas. Por fim, o ensino com gêneros textuais é sustentado pelas reflexões de Marcuschi (2008), Rojo (2009, 2012) Ferrarezi Jr. (2015), que compreendem os gêneros como práticas sociais fundamentais para a escolarização da linguagem. A pesquisa-ação, com abordagem qualitativa e interpretativa, centrada no cotidiano da sala de aula, foi a metodologia adotada. A investigação foi realizada em uma escola pública do interior do Rio Grande do Norte, delimitando-se à análise de 22 textos produzidos por uma turma composta por 11 estudantes, com idades entre 11 e 13 anos, escritos antes e depois da aplicação de uma sequência didática sobre o gênero carta de reclamação. No que se refere à coleta de dados, esta incluiu as próprias produções textuais, diário de campo, registros fotográficos e rodas de conversa. Os resultados indicam que a oralidade influencia significativamente a escrita dos alunos, manifestando-se por meio de processos linguísticos recorrentes e evidenciam que as estratégias pedagógicas adotadas favoreceram, sobretudo, o letramento no gênero carta de reclamação. Os resultados apontam ainda que a valorização da variação linguística contribuiu para a ampliação da consciência de adequação aos usos formais da língua, ainda que sem eliminação imediata das marcas da oralidade.