ANÁLISE DE IMPEDÂNCIA BIOELÉTRICA EM PACIENTES COM CÂNCER: PROPOSIÇÃO DE EQUAÇÃO DE ESTIMATIVA DE ÁREA MUSCULAR ESQUELÉTICA E PREDIÇÃO DE ÂNGULO DE FASE PARA MORTALIDADE
impedância bioelétrica; câncer; exames de imagem para câncer, fatores de risco; ângulo de fase; prognóstico.
A diminuição da massa muscular esquelética é uma condição que afeta os pacientes com câncer, sendo necessário métodos de avaliação da composição corporal que propicie o diagnóstico nutricional seguro e preciso. Assim, a tomografia computadorizada é uma técnica oportunista que possibilita realizar essa avaliação em pacientes com câncer. No entanto, na prática clínica a sua aplicabilidade rotineira é limitada, sendo a bioimpedância elétrica (BIA) uma alternativa acessível e não invasiva, embora dependa de equações preditivas validadas para populações específicas. Além disso, o ângulo de fase (AF), derivado da BIA, é considerado um marcador prognóstico em pacientes com câncer, embora ainda careça de pontos de corte bem estabelecidos. Portanto, objetivo do estudo foi explorar os dados bioelétricos derivados da BIA para estimativa de massa muscular e predição de mortalidade em pacientes com câncer. A tese é composta por produtos oriundos de dois estudos. Para a avaliação da BIA foi utilizado um modelo tetrapolar que forneceu os valores de resistência (R) e reatância (Xc). O primeiro estudo teve como objetivo desenvolver uma equação preditiva baseada na BIA para estimativa da área muscular esquelética, utilizando a TC como método de referência. Trata-se de um estudo transversal bicêntrico, envolvendo 211 pacientes. A equação foi desenvolvida utilizando um modelo de regressão linear, mantendo as variáveis que melhor se correlacionam com a área muscular esquelética da TC. Para a validação utilizou-se os gráficos de Bland-Altman e o método de reamostragem de bootstrap. O coeficiente de correlação de concordância de Lins (CCC), o erro quadrático médio e o erro absoluto médio foram calculados antes e depois da reamostragem. A equação proposta incluiu sexo, idade, peso, altura, resistência e reatância. O segundo estudo teve como objetivo determinar os pontos de corte do AF associados à mortalidade em curto prazo em diferentes estágios do câncer. Foi uma coorte multicêntrica com 1.121 pacientes adultos com câncer no Brasil. O desfecho primário foi a mortalidade em 6 meses. A acurácia preditiva do AF foi estimada utilizando curvas ROC, e os pontos de corte foram estimados utilizando o índice de Youden. Modelos de regressão de Cox examinaram as associações brutas e ajustadas entre o AF e a mortalidade nos diferentes estágios TNM (I-II, III, IV). Quanto aos resultados do primeiro estudo, o modelo explicou mais de 85% da variabilidade da área muscular esquelética (R² ajustado= 0,86), com um erro quadrático médio de 10,37 cm² e um erro absoluto médio de 8,28 cm². A área muscular esquelética da BIA apresentou alta correlação com a da TC (ρ = 0,93, p < 0,001). Os gráficos de Bland-Altman e o coeficiente de correlação de Cox demonstraram concordância moderada entre os métodos (0,92). A equação de bioimpedância proposta demonstrou potencial para predizer a área muscular esquelética quando comparada ao padrão de referência. O segundo estudo observou que os valores de AF foram significativamente menores nos pacientes não sobreviventes (diferença média: -1,02° em homens; -1,21° em mulheres). As análises de ROC demonstraram desempenho preditivo razoável, com limiares ótimos de ≤ 5,43° para homens (AUROC 0,74) e ≤ 4,22° para mulheres (AUROC 0,77). Em todos os estágios da doença, o AF previu consistentemente a mortalidade, com maior precisão no estágio IV (AUROC 0,75; critério ≤ 4,72°). Em modelos de Cox multivariados, o AF permaneceu associado independentemente à mortalidade em 6 meses após o ajuste para fatores de confusão. Portanto, nesse estudo foi observado que valores abaixo de 5,5° podem ser usados como estratificação de risco e ajudar na tomada de decisões em pacientes com câncer.