TEMPO DE ESPERA ENTRE O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO EM MULHERES COM CÂNCER DE COLO DO ÚTERO NO BRASIL
câncer do colo do útero; tempo para tratamento; acesso aos serviços de saúde; desigualdades em saúde; análise espacial; registros hospitalares de câncer.
O câncer do colo do útero permanece como importante problema de saúde pública no
Brasil, com desigualdades territoriais e assistenciais que repercutem no acesso ao tratamento
oportuno. Este estudo objetivou analisar a oportunidade do início do tratamento do câncer do
colo do útero no Brasil e sua relação com fatores individuais, hospitalares, socioeconômicos,
territoriais e relacionados à organização e à oferta dos serviços de saúde. A pesquisa utilizou
dados secundários dos Registros Hospitalares de Câncer e foi desenvolvida por meio de quatro
estudos complementares. Foram analisados o intervalo entre o diagnóstico e o início do
tratamento segundo a existência de diagnóstico prévio à chegada à unidade hospitalar; a
distribuição espacial do tratamento iniciado em até 60 dias e sua relação com indicadores
socioeconômicos e de oferta de serviços; os fatores individuais, hospitalares e contextuais
associados ao atraso superior a 60 dias, por meio de modelagem multinível; e, no Rio Grande
do Norte, o deslocamento intermunicipal para o tratamento e sua relação com o atraso, o
estadiamento e diferentes dimensões individuais, contextuais e assistenciais. No primeiro
estudo, 40,4% dos 41.052 casos iniciaram o tratamento em até 60 dias, com diferenças segundo
a condição de diagnóstico prévio à chegada ao hospital. A análise espacial evidenciou
autocorrelação territorial da proporção de tratamentos iniciados em até 60 dias, sendo a
adequação ao prazo estabelecido pela Lei dos 60 Dias negativamente associada à
vulnerabilidade em infraestrutura urbana e positivamente associada à oferta de braquiterapia.
Na análise multinível, realizada com 37.585 casos, 57,6% apresentaram atraso superior a 60
dias, associado à idade, escolaridade, diagnóstico prévio, estadiamento, residência em capitais
e origem do encaminhamento, com heterogeneidade entre unidades da Federação e
estabelecimentos de saúde. No Rio Grande do Norte, foram incluídos 1.291 casos, e maiores
distâncias intermunicipais estiveram associadas à maior prevalência de atraso no início do
tratamento, enquanto características individuais, hospitalares e contextuais também se
relacionaram aos desfechos analisados. Os achados evidenciam que a oportunidade do
tratamento do câncer do colo do útero é influenciada por múltiplas dimensões, que envolvem
características individuais e desigualdades na organização territorial e assistencial da atenção
oncológica. O fortalecimento da regionalização, dos fluxos assistenciais e da distribuição dos
serviços especializados mostra-se relevante para ampliar a equidade e favorecer o início
oportuno do tratamento.