Análise de Marcadores Biológicos Associados ao Tratamento com Cetamina Subcutânea na Depressão Resistente ao Tratamento: Um Estudo Clínico Aberto
Palavras-chave: Cetamina; Depressão Resistente ao Tratamento; Biomarcadores; Psicoterapia Assistida por Cetamina; Psiquiatria de Precisão
A crescente busca por biomarcadores capazes de predizer resposta terapêutica e elucidar mecanismos fisiopatológicos têm impulsionado o desenvolvimento da psiquiatria de precisão nos transtornos mentais. Entre os principais sistemas investigados na depressão resistente ao tratamento (DRT), destacam-se os eixos inflamatório, neuroendócrino e neurotrófico, frequentemente associados à gravidade clínica e à resposta aos tratamentos antidepressivos. Nesse contexto, a cetamina tem demonstrado efeitos antidepressivos rápidos e robustos, porém permanece pouco compreendido como a associação entre cetamina e intervenções psicoterapêuticas estruturadas influencia esses marcadores biológicos ao longo do tratamento. Assim, o presente estudo investigou alterações em marcadores inflamatórios, neuroendócrinos e neurotróficos — proteína C-reativa (PCR), cortisol, dehidroepiandrosterona (DHEA) e fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) — durante o tratamento com cetamina subcutânea em pacientes com DRT, avaliando sua associação com a gravidade dos sintomas depressivos, a resposta clínica e o potencial efeito adjuvante da psicoterapia. Foi realizado um ensaio clínico aberto e não randomizado com 46 pacientes brasileiros com DRT acompanhados por oito semanas. Os participantes foram distribuídos por conveniência em dois grupos terapêuticos: monoterapia com cetamina subcutânea (n=23) e psicoterapia assistida por cetamina (PAC) (n=23). A gravidade dos sintomas depressivos e a resposta clínica foram avaliadas por meio da Montgomery-Åsberg Depression Rating Scale (MADRS), enquanto amostras de sangue e saliva foram coletadas nas semanas 1, 4 e 8 para dosagem dos biomarcadores. As análises estatísticas foram realizadas por ANCOVA e modelos lineares, utilizando índice de massa corporal (IMC) e psicoterapia externa como covariáveis. Não foram observadas alterações longitudinais ou diferenças entre grupos nos níveis de PCR; entretanto, o IMC apresentou associação positiva significativa com o status inflamatório (p<0,001). Na avaliação neuroendócrina, verificou-se interação significativa entre grupo e tempo para os níveis de cortisol (p=0,034). O grupo PAC, caracterizado por maior cronicidade da doença, apresentou níveis basais de cortisol significativamente mais elevados, seguidos por um padrão de normalização e estabilização ao longo do tratamento, aproximando-se dos valores observados no grupo tratado apenas com cetamina. Em relação aos desfechos clínicos, ambos os grupos apresentaram redução significativa dos sintomas depressivos ao longo do acompanhamento. Contudo, na oitava semana, o grupo PAC apresentou taxas de remissão significativamente superiores às observadas no grupo de monoterapia (78,3% versus 34,8%; p=0,007). Os resultados preliminares sugerem que a integração entre cetamina e psicoterapia pode exercer efeitos moduladores sobre sistemas biológicos relacionados ao estresse, particularmente o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, além de favorecer melhores desfechos clínicos. Adicionalmente, os achados reforçam a importância de considerar fatores metabólicos, como o IMC, na interpretação de biomarcadores inflamatórios em estudos de psiquiatria de precisão.