TOLERAR OU COMPETIR: TOLERÂNCIA SOCIAL NO CONTEXTO ALIMENTAR EM MACACOS-PREGO-GALEGO (Sapajus flavius)
Forrageio social, Comportamento alimentar, Tolerância social e Competição.
A tolerância, definida como a propensão de estar próximos a coespecíficos ao redor de recursos com baixa ou nenhuma agressão, é um dos aspectos mais importantes da sociabilidade entre os primatas. Estar em proximidade permite proteção contra predadores e que indivíduos subordinados tenham acesso a fontes concentradas de alimento, enquanto atua como facilitador nos processos de aprendizagem para indivíduos juvenis. Este estudo investigou a tolerância social durante a exploração de uma plataforma alimentar experimental por um grupo de macacos-prego-galego (Sapajus flavius) que habita um fragmento de mata atlântica no nordeste brasileiro. Modelos socio-ecológicos apontam a oferta geral concentração de fontes alimentares, risco de predação, tempo de manuseio do alimento e classe sexo-etária dos indivíduos como importantes preditores de tolerância intra-grupo. A partir desses fundamentos, neste estudo, testamos as seguintes questões: (1) quem são os visitantes mais frequentes da plataforma?; (2) Como a classe sexo/etária, a produtividade alimentar, a posição da plataforma, a quantidade e o tipo de alimento disponível influenciam a tolerância e que fatores aumentam a probabilidade de ocorrerem interações intolerantes?; (3) Como a tolerância afeta o sucesso no forrageio individual? Observamos 1289 visitantes à plataforma enquanto havia comida e 525 deles (40,7%) participaram de eventos de coforrageamento (tolerantes). Houve 61 interações agonísticas diádicas, totalizando 1.30 interação por hora de observação comportamental, e 44 indivíduos envolvidos em eventos de coalimentação. Encontramos que: (1) a plataforma é usada majoritariamente por machos adultos, nas áreas de borda e durante a baixa produtividade. Juvenis aumentam uso da plataforma quando o alimento é de fácil manipulação; (2) o tempo médio de coforrageamento entre fêmeas é menor do que todos os outros grupos possíveis; (3) a taxa de agonismo é maior quando o alimento é de difícil manipulação, e participar de interações agonísticas diminui a taxa de alimento obtido; (4) indivíduos obtêm mais alimento na baixa produtividade e nas áreas de borda, e juvenis obtêm menos alimento quando comparados a indivíduos adultos. Nossos resultados sugerem que a tolerância em Sapajus flavius é mediada pelo tipo de recurso disponível, além de uma grande preferência de machos como parceiros de forrageamento. Ainda, ela ainda permite que indivíduos mais sensíveis a competição e predação, como juvenis, tenham acesso ao alimento disponível, principalmente a alimentos de maior facilidade de manipulação e ingestão. Do ponto de vista conservacionista, o maior tempo de forrageio nas áreas de borda mostra que essas áreas são importantes pontos de forrageio para a espécie e para outros primatas, principalmente em fragmentos pequenos, onde a razão borda/área total é alta em comparação com grandes fragmentos ou florestas. Junto a maior eficiência de forrageio (maior saldo de frutos) no período de baixa produtividade, os resultados reforçam a importância da proteção e conservação de fragmentos como fator determinante para sobrevivência da espécie, pois, mesmo ambientes altamente antropizados e reduzidos, onde os recursos alimentares são escassos, o aproveitamento total dessas áreas, inclusive bordas, garante a manutenção das dinâmicas sociais e do sucesso alimentar e reprodutivo de primatas, principalmente espécies criticamente ameaçadas, como Sapajus flavius.