RELAÇÕES TRÓFICAS EM PRAIAS DE FERNANDO DE NORONHA: PADRÕES DE OCORRÊNCIA DE NEGAPRION BREVIROSTRIS EM FUNÇÃO DA PRESENÇA DE SARDINHAS-CASCUDA (HARENGULA SP.) E PERCEPÇÕES LOCAIS SOBRE A PREDAÇÃO
ecologia trófica; interações costeiras, monitoramento participativo; etnoecologia; ilhas oceânicas
As sardinhas desempenham um papel crucial na sustentação dos ecossistemas marinhos, atuando como elo intermediário no fluxo de energia entre os níveis tróficos inferiores e superiores. No Arquipélago de Fernando de Noronha, além da sua importância ecológica, as sardinhas (Harengula sp.) têm um papel socioeconômico relevante, sendo utilizadas como isca de excelência para a pesca de peixes de maior porte. São comumente encontradas em zonas de surfe, e sua abundância atrai predadores como o tubarão-limão (Negaprion brevirostris), espécie costeira e ameaçada que ocorre em Fernando de Noronha e completa todas as fases do seu ciclo de vida no arquipélago. A formação de extensos cardumes de sardinhas próximos à praia cria um ambiente complexo de interações de predação, que se sobrepõem a atividades humanas como pesca e surfe. Este projeto buscou identificar as principais áreas e períodos de ocorrência do tubarão-limão em relação à presença de cardumes de sardinha-cascuda, além de investigar a percepção da comunidade local sobre a dinâmica de predação das sardinhas nas praias. O estudo foi dividido em dois capítulos complementares. No primeiro, a partir de um programa de ciência cidadã com base na plataforma Instagram, foram reunidos 6.798 registros de elasmobrânquios, dos quais 632 correspondem ao tubarão-limão. Os dados de ocorrência de sardinhas foram obtidos por meio de levantamento conduzido por Agostinho (2025), também oriundo de ciência cidadã. No segundo capítulo, foram realizadas entrevistas de caráter etnoecológico com pescadores, surfistas e guias, abordando três dimensões temáticas: (1) concentração de sardinhas e fatores ambientais relacionados; (2) “arrufo” e eventos de predação conjunta; e (3) influência de predadores de grande porte nas atividades humanas. Os resultados indicaram hotspots de ocorrência no “mar de dentro”, sobretudo em praias arenosas, e um efeito espacial marcado: praias dos Clusters 2 e 3 apresentaram taxas aproximadamente 58% e 88% menores que as do Cluster 1. Observou-se efeito positivo da estação seca e da frequência de sardinha-cascuda, enquanto o swell não foi significativo no intervalo amostrado. No segundo capítulo, os resultados apontaram o uso de estratégias de predação como cercamento/encurralamento e uso da onda, além da participação multiespecífica de xaréus, xixarros, aves e tubarões. Houve consenso sobre o “arrufo” como evento de predação conjunta e pequenas diferenças de percepção entre grupos quanto à influência dos predadores. O estudo reforça o potencial do monitoramento participativo e conhecimento ecológico local (LEK) para reunir informações acerca das interações que ocorrem na área costeira e por consequência, em futuros manejos desta área.