Etnografia dos processos educacionais na banda municipal de São Gonçalo do Amarante (RN): abordagens teóricas, oralidade e colaboração
Palavras-chave: educação musical; banda de música; etnografia; transmissão híbrida; Pedagogia do Agenciamento Ético.
Esta dissertação descreve, por um estudo de caso do tipo etnográfico, os processos de ensino e aprendizagem musical da Banda Municipal de São Gonçalo do Amarante (BAMUSGA), corporação civil de cerca de sessenta e dois integrantes existente desde 1996, no Rio Grande do Norte. A observação participante correu de outubro de 2024 a dezembro de 2025, em ensaios, cortejos e concertos. A ela se somaram o diário de campo, a análise documental, as entrevistas informais de todo o convívio e cinco entrevistas formais de roteiro semiestruturado, a primeira em dezembro de 2025 e as demais no primeiro semestre de 2026, lidas em doze eixos e quarenta categorias. Tomo a fricção teórica como ferramenta interna do método etnográfico e ponho sistemas filosóficos e sociológicos em atrito diante das cenas do campo, para que cada lente mostre o que a outra cala. Situo o valor pedagógico da prática em uma transmissão musical híbrida, na qual partitura, oralidade e auralidade se entrelaçam, e em uma aprendizagem que organizo sob o nome de Pedagogia do Agenciamento Ético, reunida em três componentes observáveis no ensaio, o agenciamento material que prende o aprender aos corpos, aos instrumentos e ao espaço, a competência que corre de naipe a naipe e a negociação ética do reconhecimento, pela qual cada integrante conquista lugar e voz. No terreno etnomusicológico, registro a identidade sonora própria da banda e o modo pelo qual o repertório que circula pela cidade produz pertencimento e memória, e adenso o diálogo entre a educação musical e a etnomusicologia a partir de uma prática potiguar. Na chave sociológica, leio a permanência dos músicos nas três décadas da corporação como economia moral do ofício, fidelidade a um código de solidariedade, pontualidade e cuidado mútuo que faz da banda uma escola de vida. Sustento que a banda ensina mais do que música, forma formadores e produz localidade, e ofereço a Pedagogia do Agenciamento Ético como contribuição ao debate sobre a formação musical em corporações civis brasileiras.