Cartografias do cuidado: biopolítica e estética da amizade homossexual nas cartilhas da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (2001-2021)
ABIA; cartilhas; discursos; HIV; aids.
O ano era 1987, enquanto o Brasil atravessava um período de redemocratização política, a
epidemia de aids se alastrava rapidamente atemorizando a população, sobretudo, os jovens.
Foi nesse cenário que a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) foi
oficialmente fundada. Em meio as atividades empreendidas pela associação, ela instaurou a
produção de cartilhas como componente das suas iniciativas educacionais. Encontrei nessas
cartilhas o objeto viabilizou a elaboração desta tese que tem por objetivo analisar os
discursos, que constituem os materiais educativos, direcionados ao público homossexual e
versam sobre HIV, aids, prevenção, cuidados e prazer, entre os anos de 2001 e 2021, com
circulação no Brasil. Esse caminho foi traçado buscando comprovar o argumento de que as
cartilhas da ABIA são dispositivos de poder constituídos por discursos que buscam governar
corpos e condutas para a prevenção, o cuidado e modos de viver a sexualidade. Este texto,
alinhado com a área da Educação e o campo da História da Saúde e das Doenças, tece um
diálogo teórico com os estudos da Nova História Cultural e do Pós-Estruturalismo, sendo
atravessado, sobretudo, pelos conceitos de biopolítica, contracondutas e estéticas – da
existência e da amizade, a partir de Michel Foucault (2011; 2008b; 2010a; 2010b), como
ferramentas que possibilitam pensar exercícios de poder e as práticas que desafiam às formas
normativas de governo da vida. O recurso metodológico utilizado na operacionalização das
fontes foi o da Análise do Discurso, a partir de Michel Foucault (2014; 2008a), buscando
explorar a linguagem e o conhecimento como moldados por estruturas de poder, instituições e
práticas discursivas, para melhor analisar a vontade de verdade que atravessa os discursos e
produz materialidades. Dentre as conclusões foi constatado que as cartilhas da ABIA são
entre-lugares, pois à medida que elas têm efeitos normativos e reguladores ao intencionar
educar sujeitos para a prevenção e o cuidado, elas também engendram deslocamentos que
concebem espaços outros, atravessados pela estética do cuidado de si e a defesa da amizade
como formas de vida.