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Introdução

 

O audiovisual nordestino vem se reafirmando desde a retomada do Cinema Brasileiro. Se Carlota Joaquina (1995) é citado constantemente como marco do renascimento cinematográfico, podemos dizer o mesmo de Baile Perfumado (1996), filme pernambucano que revisita o cangaço. Desde então, observa-se produção cada vez mais expressiva, principalmente em Pernambuco, Bahia, Ceará e Paraíba. O Rio Grande do Norte, por sua vez, mesmo com uma produção cada vez mais numerosa e qualificada, notadamente a partir dos anos 2000, ainda se apresenta de forma modesta nesse cenário que aos poucos se consolida. Visando a transformação dessa realidade, torna-se necessário criar condições para consolidar a produção audiovisual, aprimorando a formação, a pesquisa, a preservação e a crítica.

A UFRN tem ampliado sua contribuição para a pesquisa e formação audiovisual de diversas formas: seja nos grupos de pesquisa, entre os quais o Círculo de Cultura Visual;  na pós graduação, especialmente nos programas de Antropologia, Artes, Ciências Sociais, Educação, Estudos da Mídia, História, entre outros; na extensão, com destaque para diversos cineclubes, cursos livres, muitos apoiados pelo Núcleo de Arte e Cultura; ou nos cursos de graduação em Artes, Antropologia, Ciências Sociais, Jornalismo, Radialismo, Pedagogia, Publicidade e Propaganda. Neste contexto, destacamos também a criação da graduação em Audiovisual, em 2016. Ainda assim, reconhecemos a importância de avançar na integração entre pesquisa, criação artística e acesso à produtos culturais, aproximando produtores independentes da academia.

Dentro do campo audiovisual, se levarmos em conta as produções nacionais que chegam a festivais, salas de cinema, ou que são distribuídos de forma independente nas diversas plataformas digitais, é possível notar de forma clara um amplo crescimento do gênero documental. Devido a menor equipe e estrutura que o processo documental demanda, a apropriação de sua forma e, consequentemente, seu trânsito por diferentes disciplinas se amplia. Visivelmente seu lugar de atuação se estende e com ele a procura por um aprofundamento teórico/prático. Entendemos que é preciso acompanhar esse movimento e também aprofundar a formação direcionada do documentário no Rio Grande do Norte, por se tratar de meio para a promoção, divulgação, reflexão sobre diversos temas, desde saúde, ciência e tecnologia, até meio ambiente e ciências humanas. Além disso, é importante destacar que a produção documental também alimenta e qualifica o audiovisual ficcional, que tem muito a crescer em nosso estado.

Mesmo considerando os desafios históricos, as contribuições do Rio Grande do Norte para o audiovisual nordestino devem ser lembradas. Um dos pioneiros no ciclo nordestino do cinema mudo na década de 1920, foi o ator, roteirista e diretor Gentil Roiz, natural de Canguaretama, fundador da produtora Aurora Films. Filmes como Boi de Prata e Jesuíno Brilhante são exemplos de longas metragens filmados no estado, respectivamente em 1973 e 1978. Entretanto, os problemas estruturais do cinema brasileiro e o elevado custo de produção e distribuição criaram obstáculos significativos para que estes filmes conquistassem maior visibilidade.

Visando reforçar ainda mais a nossa proposição, nos apoiamos e estabelecemos um paralelo com a produção documental paraibana, que construiu vínculos significativos com a UFPB, os quais resultaram na criação do Núcleo de Documentação Cinematográfica, em 1979. Serve de exemplo a atuação de Linduarte Noronha, professor da UFPB e diretor de Aruanda (1960), documentário que repercutiu mundialmente e influenciou o Cinema Novo. Esta obra foi um marco no ciclo do documentário paraibano, lançando realizadores como Vladimir Carvalho, João Ramiro Mello, Rucker Vieira e Jurandy Moura. Reflexos de transformação que reverberam até os dias de hoje. São experiências que apontam possibilidades expressivas, a serem aproveitadas pela UFRN.
Esta realidade começa a se modificar nos anos 2000, com o advento da retomada, quando digitalização reduz os custos e a articulação de políticas públicas voltadas para a descentralização começa a produzir efeitos. O estabelecimento da Ancine, da Secretaria do Audiovisual, do Fundo Setorial do Audiovisual e a aprovação da lei 12.485 em 2011 criam um novo cenário para realizadores fora do eixo Rio São Paulo. Um exemplo do esforço pela descentralização foi o projeto DocTV, que teve quatro edições fomentando obras em todos os estados brasileiros. No Rio Grande do Norte as quatro produções realizadas foram Fabião das queimadas (2004), Hermógenes - Deus me livre de ser normal (2005), O Vôo silenciado do Jurucutu (2007), Sangue no barro (2009).       

Aprendendo com experiências nordestinas - a partir de intercâmbios realizados na Rede Nordeste Audiovisual e em eventos como NordesteLab, Mercado Audiovisual Cearense, Market.Mov e Cineport - e participando intensamente das articulações no Rio Grande do Norte, entendemos que nosso estado vive um importante ciclo audiovisual, com surgimento de diversos coletivos e produtoras dedicados à produção autoral; multiplicação de cineclubes - entre os quais cabe enfatizar o Cineclube Natal; realização de festivais e promoção de mostras, com destaque para Goiamum Audiovisual, Festival Urbanocine, Mostra de Cinema de São Miguel do Gostoso, Mostra Trinca Audiovisual. Além dos editais municipais Cine Natal 2014 e 2016, que fomentaram documentários, como Leningrado - linha 41, Codinome Breno, Catu, e A parteira.

   

 

Justificativa


Desde a criação do curso de Radialismo na UFRN, em 2002, verificamos o surgimento de diversas outras graduações em áreas vinculadas ao audiovisual na UERN, no IFRN ou em instituições privadas no Rio Grande do Norte. A digitalização trouxe significativa redução nos custos referentes a equipamento, facilitando a criação de obras em colaboração, com orçamentos baixos. O cinema de guerrilha ou a “brodagem” marcaram o trabalho de grupos, nos quais realizadores se reuniram por afinidade.

Assim, ainda na universidade, formaram-se coletivos de realizadores. Alguns, conseguiram constituir filmografia expressiva, como é o caso do coletivo Caminhos, comunicação & cultura, fundado em 2005, e do coletivo Caboré Audiovisual, formado em 2013. Surgiram oportunidades de profissionalização decorrentes do novo cenário audiovisual, marcado pela atuação da Ancine, pelo fomento do Fundo Setorial do Audiovisual e pela lei 12.485/2011, que trata da TV por assinatura. Desta forma, produções potiguares foram beneficiadas por investimentos federais, o que favoreceu o aprimoramento técnico, em intercâmbio com realizadores da Paraíba e de Pernambuco. Ao mesmo tempo, verificou-se grande difusão dos curtas potiguares, que tem participado de festivais e mostras pelo Brasil e no exterior.

Entretanto, verificamos a necessidade de qualificar os projetos, com intuito de estimular o desenvolvimento obras de maior duração, tais como documentários de longa metragem e séries documentais, com orçamentos mais adequados ao investimento necessário. Notamos ainda uma carência de um aprofundamento estético e conceitual em grande parte das obras realizadas na região.

Este curso tem a perspectiva de fortalecer a cadeia produtiva do audiovisual no RN em toda sua dimensão, consequentemente, auxiliando na geração de emprego e renda. Esta também é uma preocupação constante entre os egressos dos cursos de comunicação social, área na qual se verifica diminuição na oferta de empregos. Em contraste, o audiovisual está em franca expansão, adicionando mais de 25 bilhões ao PIB brasileiro.

Verifica-se a necessidade de ampliar a participação do RN neste mercado, consolidando o Arranjo Produtivo Audiovisual Potiguar, estabelecendo vínculos mais intensos entre Universidade, empresas, organizações da sociedade civil e Estado, em seus diferentes níveis.  

De acordo com pesquisa formulada por Dênia Cruz (2016), cerca de 76 filmes foram produzidos no Rio Grande do Norte, na primeira década dos anos 2000. A partir de 2010 houve um crescimento considerável, pelos  dados referentes ao período de cinco anos, no qual se enumera a produção de 146 filmes entre documentários, ficções e animações. Concluímos que o acesso facilitado a novas tecnologias; o aumento no número de cursos de formação e capacitação - seja de graduação ou cursos livres; criação de editais públicos para fomento do cinema, e as leis de incentivo estão promovendo o aumento no número de realizações.

Outro dado que ilustra este cenário é que 80% dos realizadores entrevistados pela pesquisa informaram que suas obras participaram de mostras e festivais, concorreram a prêmios em festivais nacionais e internacionais. Sendo que apenas 51% dessas realizações receberam algum tipo de investimento financeiro. Isso revela que entidades, grupos e movimentos como o APL, ABDeC/RN, Rede Nordeste Audiovisual fortalecem a cena e auxiliam na ampliação da cadeia produtiva.

Esse foi um dos motivos para que a composição do Corpo Docente do curso fosse integrada por pós graduados, com experiência expressiva em pesquisa e produção audiovisual, aproximando atividade instrumental do saber científico, atendendo aos objetivos e ao projeto pedagógico desta especialização.




Objetivos


Geral

  • Estimular e qualificara produção, a pesquisa e o pensamento crítico dedicados ao audiovisual documental no Rio Grande do Norte.

Específicos

  • Incentivar a pesquisa científica aplicada ao documentário, em diálogo com estudos desenvolvidos nos programas de pós graduação em comunicação, artes e ciências sociais ou áreas afins;

  • Fomentar a produção audiovisual de alto nível em sinergia com coletivos, produtoras e outras organizações, contribuindo para o desenvolvimento da cadeia produtiva;

  • Potencializar o pensar sobre o audiovisual, na forma de resenhas, relatos de experiência, reportagens críticas e ensaios, que tenham como foco a produção potiguar, vista no contexto brasileiro ou no contexto mundial.

  • Contribuir para a consolidação de cursos em nível de graduação  relacionados à cinema, em especial a graduação em audiovisual.

  • Estimular a experimentação audiovisual, partindo de diálogos entre documentário e ficção, envolvendo as artes, ciências humanas e demais ciências.      


Resultados esperados


O campo documental por muito tempo foi colocado à margem das produções cinematográficas, que ainda evidenciam como grande expoente as narrativas ficcionais. Passado quase um século de suas primeiras experimentações, aos poucos o gênero transcendeu seu lugar originário e se expandiu, de maneira singular, podendo ser apontado como o domínio de maior metamorfose conceitual e processual. Devido a sua liberdade narrativa e criativa, sua peculiar forma de se relacionar com o real, o documentário se tornou um instrumento eficaz de diálogo com diferentes áreas do conhecimento humano.

Entendemos que esta especialização em documentário pode criar considerável sinergia com grupos de pesquisa e programas de pós-graduação da UFRN. Desta forma, pretendemos estimular a pesquisa e a elaboração de trabalhos acadêmicos sobre documentário e temas correlatos na educação, ciências sociais, meio ambiente ou em áreas afins. Diversos professores deste curso integram grupos de pesquisa e programas de pós graduação. Considerando estudos aprofundados na área, pretendemos estimular e qualificar a produção de obras, refletindo sobre fundamentos, estéticas, políticas e práticas da produção audiovisual documental. Ressalta-se a necessidade de questionar como acontece a formação de público em tempos de convergência, para que possamos enfrentar os dilemas da distribuição. Fazer este debate é imperativo para compreender a cadeia produtiva do audiovisual, desde a idealização e elaboração de projeto à obra finalizada, em busca de veiculação. Este curso visa incentivar a qualificação dos projetos existentes, promovendo aproximações entre os diversos atores deste campo, tais como realizadores independentes, produtoras, programadoras e distribuidoras.

Entendemos que este curso pode trazer grandes contribuições para a graduação em Audiovisual da UFRN, aprofundando de forma significativaaspectos discutidos em sala de aula, contribuindo para o aperfeiçoamento de laboratórios, estimulando estudos avançados no campo do documentário e também fomentando a produção. Uma especialização que também irá contribuir com outras graduações, tais como jornalismo, publicidade e propaganda, artes visuais, entre outros. Este fato fica mais evidente por se tratar de uma especialização em filme documental, terra fértil das produções audiovisuais acadêmicas no Rio Grande do Norte, por isso se faz necessário um aprofundamento em suas nuances pois há ainda um longo caminho a ser percorrido no estudo dos filmes documentários.

Seguindo a máxima de Jean-Luc Godard que nos afirma que “Todos os grandes filmes de ficção tendem ao documentário, como todos os grandes documentários tendem à ficção”, e cientes de que cada vez mais os processos de realização audiovisual se entrecruzam e se alimentam, podemos afirmar que o  estudo e, consequentemente, a produção documental estimulada por essa especialização, também fortalecerá a realização ficcional e experimental, provocando questionamentos e desafios aos formatos, gêneros ou usos tradicionais da linguagem audiovisual. Não só em face de reflexões e pesquisas nesses diferentes gêneros, mas também pelo aperfeiçoamento em áreas técnicas necessárias: fotografia, produção, produção executiva, edição, direção e montagem, som.

Por fim, acreditamos que esse movimento promovido pelo curso requerido, irá favorecer o aprimoramento da produção audiovisual no RN, hoje muito caracterizada pela produção de curtas-metragens, contrastando com pequena produção de outras obras. Sem deixar de incentivar a criação de filmes curtos, reconhecemos a necessidade de produzir mais longas metragens e séries, em consonância com diversificação do audiovisual nos últimos quinze anos. É papel da universidade investir no desenvolvimento intelectual, ampliar a pesquisa e pensamento crítico sobre as construções sociais, sejam elas no campo das ciências exatas, biomédicas ou humanas. Procuramos a partir do curso de especialização em documentário expandir o conhecimento dentro do campo audiovisual, campo esse que vem ocupando, progressivamente, o lugar de linguagem do século XXI.



Notícia cadastrada em 01/08/2018 16:25  
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