No ano de 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios. O monitoramento realizado em 2025 apontou a manutenção do patamar crítico, contabilizando aproximadamente 1.470 mortes, consolidando o período como o mais violento para mulheres desde a tipificação da lei do feminicídio (2015). De acordo com a 5ª edição da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil (Datafolha/FBSP, 2025), cerca de 37,5% das brasileiras com 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência ou agressão física, sexual ou psicológica nos últimos doze meses. O dado referenciado equivale a mais de 21 milhões de mulheres. Ainda considerando o recorte temporal supramencionado (2024 e 2025), é preciso chamar atenção para a quantificação de outros crimes cometidos contra mulheres: foram realizadas 1.067.556 chamadas para o 190 denunciando violência doméstica, registrou-se 95.026 casos de crimes de stalking e 51.866 casos de violência psicológica (FBSP, 2025). Se por um lado, os dados revelam que os espaços físicos são ambientes inseguros e hostis para mulheres e meninas da sociedade brasileira, por outro, também temos que lidar com a emergência e o crescimento de um tipo de violência que ocorre no espaço digital: o discurso redpill nas redes sociais. O termo redpill vem do inglês e significa pílula vermelha, expressão que ganhou popularidade a partir do filme Matrix (1999) ao passo que o personagem principal é convidado a acordar para a realidade ao tomar uma pílula vermelha. Nas mídias sociais e nos fóruns da internet, especialmente a partir dos anos 2010, o termo passou a ser ressignificado em comunidades virtuais, muitas vezes com foco em debates sobre masculinidade, comportamento social e críticas às conquistas obtidas por mulheres nos últimos tempos. Contudo, fora do contexto cinematográfico, a palavra redpill ganhou um significado completamente diferente, mas ainda relacionado. Por volta de 2010, o termo passou a ser usado nos cantos da internet para representar uma cultura onde os homens são submissos às mulheres que, nas teorias deste grupo, acreditam viver em uma sociedade controlada por mulheres. Assim como no filme, o efeito da redpill, que seria a libertação dessas supostas amarras submissas. Hoje, o cenário é ainda mais preocupante, pois essa narrativa tem ganhado cada vez mais espaço na internet e legitimado discursos que estimulam a violência, aversão, falta de respeito para com as mulheres. Para ficarmos em um exemplo, de acordo com os dados da SaferNet Brasil, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos recebeu 87.689 denúncias em 2025, um aumento de 28,4% em relação ao ano de 2024. Entre as categorias monitoradas, a misoginia apresentou uma das maiores altas proporcionais, evidenciando o crescimento de conteúdos que promovem hostilidade, humilhação e violência contra mulheres no ambiente digital. Todavia, as raízes do problema não estão limitadas aos adultos. Além das redes sociais, hoje o problema tem alcançado ambientes como as escolas. Diante de um cenário preocupante para a existência das mulheres brasileiras, as instituições de ensino, longe de ser um ambiente imune às tensões sociais externas, funcionam como ambiente de ressonância e como espaço de reprodução de violências que afetam, de forma desproporcional, os corpos femininos. A construção do espaço escolar e acadêmico como um território historicamente neutro e universal mascara, frequentemente, as relações que produzem assimetrias entre homens e mulheres (SCOTT, 1986). Nesse sentido, a instituição escolar reflete diretamente essas tensões estruturais, apresentando uma escalada nítida de agressões interpessoais e discriminações de gênero. Embora não existam estatísticas oficiais que revelem diretamente a adesão de adolescentes do gênero masculino à cultura redpill, os indicadores de violência escolar ajudam a dimensionar o terreno em que discursos misóginos encontram espaço para se disseminar. O apelo desse ecossistema discursivo encontra um terreno perigosamente fértil entre jovens do gênero masculino na faixa etária dos 14 aos 18 anos, período de transição que coincide com a formação educacional do ensino médio na modalidade integrado. Conforme apontam estudos sobre masculinidades e sociabilidade juvenil (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2013), nessa fase, os jovens atravessam crises de afirmação identitária e vulnerabilidades emocionais que o tornam alvo preferencial de algoritmos de radicalização em plataformas digitais. Em paralelo a essa pesquisa, os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) neste ano, com base em informações coletadas em 2024, mostram que 39,8% dos estudantes de 13 a 17 anos já sofreram bullying, 27,2% relataram humilhações recorrentes e 16,6% afirmaram ter sido agredidos fisicamente por colegas. Entre as meninas, o percentual de vítimas de bullying chega a 43,3%. Menciono também dados retirados da pesquisa "Livres para sonhar?" (2025), promovida pela liderado pela ONG Serenas, expôs como as violências contra discentes do gênero feminino é articulada rotineiramente entre os estudantes e profissionais no ambiente educacional. Segundo a pesquisa, que envolveu cerca de 1,3 mil docentes, sete em cada dez professores afirmam ter visto, pelo menos uma vez no semestre, situações em que alunas foram agredidas, seja verbalmente ou psicologicamente, por colegas de instituição (discentes ou docentes). A mesma pesquisa também revelou que esses docentes, em sua maioria, se consideram despreparados para lidar com esse tipo de problema em sala de aula. Atualmente, o campus Escola Agrícola de Jundiaí, localizada no município de Macaíba, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) é composto por alunos e alunas distribuídos em diferentes modalidades formativas: cursos técnicos integrados, cursos técnicos subsequentes, curso tecnológico (TADS), cursos de graduações voltados às Ciências Agrárias e, ainda, pós-graduações. O cotidiano escolar, infelizmente, tem sido marcado por casos e denúncias de episódios que configuram variados tipos de violências de gêneros. Desse modo, enquanto resposta às violências, a instituição escolar e acadêmica pode tanto reforçar ataques que acontecem na sociedade, como também tem o potencial de mudar normas e padrões. Pensando nisto, o Programa ECOAR tem por objetivo combater os variados tipos de violências de gêneros no ambiente acadêmico, por meio de iniciativas educacionais, conscientizadoras, orientadoras e acolhedoras a fim de promover um ambiente seguro e respeitoso para toda a comunidade escolar, sobretudo para discentes, servidoras e funcionárias terceirizadas. Para tanto, buscamos desenvolver este programa a partir de diferentes ações efetivas, tais como oficinas pedagógicas, cine-debates, aula de defesa pessoal, palestras, rodas de conversa, proposta de formação do corpo de servidores, produção de cartilhas informativas, elaboração de protocolo e de uma rede de acolhimento às vítimas, no intuito de tornar o ambiente escolar um espaço seguro para seu público.
discentes dos cursos técnicos integrados, subsequentes e graduação; docentes; técnicos administrativos e terceirizados
comunidade escolar (pais e responsáveis pelos alunos), docentes e discentes das escolas de educação básica municipal e estadual
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