A XV semana de antropologia da UFRN 2017 propõe uma reflexão sobre a prática antropológica, as categorias de análise que ela constrói, utiliza e/ou recicla, assim como os desafios que enfrenta quando seu objeto de pesquisa é definido e disputado com outros saberes disciplinares como o Direito, a psicologia, o serviço social etc. e, ainda, com outras ordens de saberes especializados como o judicial, o policial, o jornalístico, o militar. O convite é para reconhecer que nessa disputa são simultaneamente criadas e continuamente deslocadas as fronteiras do que seja considerado legal ou ilegal e, nessa linha, propor também uma discussão sobre o sentido que categorias como crime, legalidade, legitimidade, justiça e direitos significam na construção de pensamento antropológico, na prática etnográfica e na atuação social e política dos antropólogos e das antropólogas. A partir das discussões, mobilizadas nos últimos anos na literatura antropológica, sobre as particularidades de alguns campos de pesquisa que estariam caraterizados pela periculosidadeem razão de sua proximidade com o crime ou violência, sugerimos inaugurar a semana discutindo a própria construção das fronteiras entre crime, legalidade, justiça e direitos. A criminalização do oficio antropológico, em especial de algumas práticas, será o exemplo concreto que permitirá mobilizar essas reflexões, considerando que a periculosidade de um objeto ou de uma etnografia, não pode ser entendida como uma caraterística própria de alguns temas ou campos e sim como um exercício constante de inscrição e classificação, sempre em disputa. Notadamente, interessa pensar como práticas, que em determinados contextos e épocas desfrutam de legitimidade como a demarcação de terras indígenas ou territórios quilombolas, podem passar a ser compreendidas como práticas suspeitas; não pelas transformações do oficio antropológico ou do recorte analítico do pesquisador, mas pelas mudanças dos próprios marcos do Estado. Assim, a mesa inaugural terá como tema: Antropologia, crime e criminalização do oficio antropológico. A segunda mesa, titulada Criminalidade e ilegalismos, dá continuidade à discussão anterior, mas foca os sentidos de criminalidade e justiça a partir de coletivos organizados e vinculados às atividades classificadas como criminosas, ilegais ou que estão nesse limiar. Nesse sentido, a mesa propõe uma discussão centrada no conceito de criminalidade e dialoga com pesquisas que inauguram o campo de estudo no Brasil e/ou que estão sendo realizados atualmente em contextos prisionais e/ou com facções criminosas. Além de problematizar os conceitos justiça (e de direitos), a discussão pretende abordar a relação entre criminalidade e reconhecimento, bem como refletir sobre os desafios da realização da atividade etnográfica nesse campo e seus possíveis desdobramentos em termos morais, acadêmicos e profissionais. Com o título Gramática dos Direitos e moralidades, a terceira mesa pretende discutir etnograficamente os direitos como experiências inscritas em territórios morais e produtoras de subjetividades. Propomos aos participantes refletir sobre os diferentes agenciamentos em torno da noção de direitos, seja nos marcos jurídicos do Estado ou em espaços de mobilização social que ampliam, para além do âmbito estritamente legal, os sentidos de justiça, de cidadania, de vítima e a 1 Escolhidas em função de recursos e de editais de financiamento que não estão abertos nesse momento.
própria definição dos direitos. Interessa também pensar nos múltiplos marcadores sociais como gênero, raça, classe, sexualidade, geração, etc. manifestos e atualizados na interação entre sujeitos que demandam por justiça e um amplo espetro de atores envolvidos no desenrolar desses processos. Encerrando a semana, propomos uma mesa intitulada Humanitarismo e ações de intervenção que visa discutir um dos múltiplos desdobramentos do discurso dos Direitos Humanos, qual seja o formato de gestão humanitária ou a razão humanitária, como frequentemente referida na literatura antropológica. Trata-se de discutir com base em pesquisas etnográficas as implicações desse modelo de gestão de populações e os tratamentos, classificações e relações que ele habilita entre os grupos de pessoas que são definidos como alvo de uma intervenção humanitária e os múltiplos agentes que operacionalizam essas ações em nome de um estado-nação ou de um organismo internacional. Interessa ainda a construção de imagens nacionais decorrentes das práticas e discursos da razão humanitária como balizadores das disputas por prestigio e legitimidade entre estados-nacionais.
XV SEMANA DE ANTROPOLOGIA
ANTROPOLOGIA DIREITOS HUMANOS E CRIMINALIDADE
Auditório do Centro de Educação
9 de OUTUBRO
17H 00 Lançamento do Volume 4 da Revista EQUATORIAL e Lançamento do Nº49 da Revista VIVÊNCIA. Dossiê:Direitos animais, ativismo e política
18H MESA DE ABERTURA
18H30 I MESA: Gramática dos direitos, direitos humanos e moralidades. Natália Padovani (UNICAMP) Adalton Marques (UNIVASF) Paulo Victor Leite Lopes (UFRN) Debatedora: Angela Facundo (UFRN)
10 DE OUTUBRO
9H MESA II: Criminalidade e ilegalismos José Ricardo Ramalho (UFRJ) Luiz Fabio Paiva (UFC) Juliana Melo (UFRN) Debatedor: Rodrigo Suassuna (UFRN) 18h30 MESA III: Antropologia e criminalização do oficio antropológico João Pacheco de Oliveira (UFRJ-MN) Guilherme do Valle (UFRN) Rita de Cássia Neves (UFRN) Glebson Vieira (UFRN)
11 DE OUTUBRO
9H GT dos discentes do PPGAS Antropologia e Direitos Humanos: Diálogos Transversais 14h MESA IV: A luta pelos direitos Em parceria com GT Direitos Humanos / ADURN - PROIFES Andreia M F (Mães dos Cárceres) RaildaSilva (Associação Amparar) Guiomar Veras (Pastoral carcerária e TJRN) Debatedor: Oswaldo Negrão (UFRN) 16h DOCUMENTÁRIO E CONVERSA COM O AUTOR L'Ordu Faso, de DragossOuédraogo 18h30 Aula: Cinema e criminalização. Crimes econômicos e crimes de sangue DragossOuédraogo (Universidade de Bordeaux)
Comentários de Gilson Rodrigues (PPGA-UFPE/FAGES)
DISCENTES, PESQUISADORES, DOCENTES
pesquisadores, sociedade civil, operadores do direito e da área de segurança pública
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